Moradores do Malueka criam grupo de segurança comunitária

Ante a onda de crimes violentos que o bairro tem vindo a registar, um movimento de jovens angolanos e estrangeiros, denominado “Os Muçulmanos”, tem actuado no sentido de devolver a segurança comunitária aos moradores do bairro Malueka, no município do Cazenga

O registo de crimes violentos, os assaltos com recurso à arma de fogo e o clima de insegurança tomavam conta do bairro Malueka, não apenas pelas dificuldades de acesso, mas também pelo crescimento populacional e por estar entre o município do Cazenga, Cacuaco e perto de Viana.

O perigo era iminente para os populares que andavam no período nocturno, bem como para aqueles que nas primeiras horas da manhã rumavam ao centro da cidade, para trabalho ou estudo. De acordo com os moradores, nem a intervenção da Polícia fez reduzir a onda de criminalidade no bairro, facto que levou a que alguns cidadãos tomassem a iniciativa de criar um grupo de segurança comunitária.

“Se quer ver uma coisa bem feita, faça você mesmo”, como diz um adágio popular, e assim, em 2015, os moradores do Malueka viram surgir o grupo ‘Muçulmanos’, composto por elementos que professam o islamismo. “Não aguentávamos mais ver pessoas perdendo a vida. Viver aqui dava medo, e, se virem bem, muitas casas foram abandonadas, dada a criminalidade que se registava.

Daí nasceu a necessidade de criar um grupo que protegesse o bairro”, referiu Tomás Vieira, um dos responsáveis do movimento.

Os infractores, segundo Tomás, são adolescentes e jovens da zona. Por serem conhecidos, o grupo recebe as denúncias e depois de constatada a veracidade dos factos, faz as buscas, a captura do suposto criminoso e leva-o à esquadra de Polícia mais próxima. Para facilitar o trabalho, contavam com a colaboração de outros indivíduos de áreas circunvizinhas, adstritas ao município de Cacuaco.

Os moradores têm o número de telefone dos “Muçulmanos” e quando há um problema são os primeiros a serem chamados.

“Conhecemos bem o bairro, não temos dificuldades em encontrar os meliantes. Sabemos onde eles páram”, gaba-se Tomás, acrescentando que desde que começaram a actuar daquela forma os moradores se têm sentido mais seguros, “já dormem com a porta de casa aberta, e ninguém rouba, porque alguém está a vigiar o bairro”. Já tiveram complicações com a Polícia, por estarem a fazer esse trabalho, pois um comandante os tinha aconselhado a parar com aquilo, visto que colocavam em risco as suas próprias vidas.

Mas, temendo que a onda de crimes voltasse a assolar o bairro, foram persistentes. “Antes de se formar a corporação, quando ligássemos à Polícia, o comandante às vezes não atendia o telefone. Mas o que nós fazemos, sobretudo, é ajudar mesmo a população: nós capturamos e a Polícia só prende”, justificou. Moradores enaltecem a iniciativa Para compensar o esforço que “Os Muçulmanos” fazem em prol da ordem no bairro, a população louvou a presença da “corporação”, e sublinhou que a zona ficaria desnorteada caso o grupo fosse desfeito. Júlia João reside no Malueka há 13 anos, e garante haver mudado muita coisa, desde que “Os Muçulmanos” tomaram essa iniciativa. “Eles mesmo estão a ajudar”, assentiu, ressaltando que desde que começaram as suas acções registou-se uma redução significativa de roubos no bairro. “Ainda tem, mas não como antes. Não sabemos como lhes agradecer pelo que têm feito. Só Deus”.

Encontramos Júlia a vender carne na praça, seu local de trabalho, e recorda que antes não se conseguia andar fora de horas, porque não era seguro. Hoje, consegue acordar às 4 horas da manhã para “comprar negócio”, o seu ganha-pão. A alegria pelo trabalho desenvolvido pelos “Muçulmanos” também foi exprimido por Bernardete Garcia, outra moradora que anseia ver o bairro como antes era: calmo e sem muitos problemas.

Concorda que o grupo deve continuar a desempenhar o seu papel, porque há muito que estão cansados de ligar à Polícia e esta farta-se de demorar a responder aos seus pedidos de socorro. “Às vezes, nem mesmo apareciam [a Polícia] ou, se aparecerem, é só para fazer a remoção do corpo”, lamentou.

Degradação de ponte divide o bairro em dois

Um dos resultados catastróficos das chuvas que se abateram sobre Luanda no presente ano é o desabamento da ponte do Malueka, que tem causado muitos transtornos aos moradores do bairro.

É uma ponte que liga o município do Cazenga ao de Cacuaco e, sem a sua reabilitação, para além de dificultar o trânsito, põe em risco a vida dos transeuntes e dos automobilistas. A ponte, construída há 20 anos pela empreiteira Agrobal, foi uma oferta ao Governo Provincial de Luanda. Agora, com o seu desabamento, deu lugar a uma pequena praça. Ambiente bastante frenético. Senhoras a comercializar produtos diversos, automobilistas lotando os carros, e, à esquerda da ponte, estava o jovem Joelson, de 18 anos, por baixo de uma árvore, quando foi abordado pela equipa de reportagem do OPAÍS. Essa árvore fazia parte do seu quintal, que foi “engolido” em consequência da degradação da ponte, iniciou.

“Quando chove, nós sofremos muito”, sustentou. Na verdade, o jovem, alertava aos governantes sobre o perigo que correm. A vala tem cerca de 10 metros de largura e sobre a ponte vê-se apenas duas manilhas, tubos utilizados na captação e transporte de esgotos sanitários, industriais e pluviais. Uma menor que a outra. Esses instrumentos que pelo estado da ponte foram reduzidos, não funcionam devidamente. Por outra, a degradação da ponte não só trouxe os supracitados prejuízos, como também fortes problemas de saneamento.

Se o problema não for resolvido, teme- se que a vala venha a transformar- se num grande ponto de depósito de lixo. Segundo Joelson, a empresa responsável pela recolha de lixo, devido à dificuldade em transitar, desde que a vala desabou, não tem feito devidamente o seu trabalho, pelo que uma parte do bairro não beneficia desse serviço. Lixo, águas paradas e outros males, dão lugar a várias doenças, dentre as quais o paludismo, que dizimam a população.

Diante dessa situação, o automobilista Rogério lamenta apenas, porque as coisas tornaramse mais difíceis, para si e para os seus colegas que todos os dias percorrem a estrada. A casa fica próximo, mas têm de dar a volta, tornando o percurso distante. Outro morador, Jorge Guedes, comunga da mesma opinião de Rogério, de que para uma curta distância as pessoas têm que pagar 250 a 300 Kz no táxi, dado o estado em que a ponte se encontra.

Segundo aquele interlocutor, havia alguns camiões que depositavam mercadorias na praça do Malueka, entretanto, com a ponte partida, estes deixaram de aparecer na área. Os moradores locais clamam para que as coisas conheçam melhorias em breve. OPAIS

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