Luaty Beirão acusa Portugal de "silêncio cúmplice" e denuncia "democracia de fachada" em Angola.

Post by: 10 June, 2026

O músico e activista angolano Luaty Beirão voltou a lançar duras críticas ao sistema político angolano, acusando Portugal de contribuir para a legitimação do poder do MPLA e de fechar os olhos ao que considera serem “eleições de fachada” em Angola.

Numa entrevista ao Diário de Notícias (DN), Luaty Beirão afirmou que, mais de uma década após a sua detenção em 2015 por alegadas acusações de tentativa de golpe de Estado contra o então Presidente José Eduardo dos Santos, a realidade política e social do país permanece praticamente inalterada.

“O que existe é uma grande maioria ostracizada, ignorada e reprimida sempre que tenta dizer que tem fome, e uma minoria que se quer perpetuar no poder”, declarou.

O activista, que ganhou notoriedade internacional após cumprir 36 dias de greve de fome enquanto esteve preso, considera que as actuais autoridades continuam a privilegiar estratégias de promoção externa da imagem do país em detrimento da resolução dos problemas estruturais enfrentados pela população.

Críticas à promoção internacional de Angola

Luaty Beirão apontou como exemplo recente a visita do actor norte-americano Will Smith a Angola, onde participou em iniciativas de promoção cultural e desportiva.

Segundo o activista, este tipo de acções contribui para criar uma imagem internacional que não corresponde à realidade vivida pela maioria dos angolanos.

“Isto não ajuda àquilo que nós queremos defender em Angola, que é a abertura democrática”, afirmou.

Para Luaty, a utilização de figuras públicas internacionais para promover o país acaba por funcionar como um instrumento de “lavagem de imagem” do regime, ocultando dificuldades económicas, sociais e políticas que persistem no país.

“Eleições de fachada”

A pouco mais de um ano das eleições gerais previstas para 2027, Luaty Beirão traça um retrato pessimista do panorama político nacional.

Na sua análise, Angola continua a enfrentar problemas de transparência institucional e ausência de mecanismos eficazes de fiscalização democrática.

“O que acontece em Angola é o mesmo que a democracia de Angola: são eleições de fachada”, afirmou.

O activista considera que os processos eleitorais servem essencialmente para conferir legitimidade internacional ao regime, defendendo que os resultados eleitorais são previsíveis antes mesmo da realização das votações.

As críticas estendem-se às eleições de 2022, que reconduziram João Lourenço à Presidência da República, num processo cujo resultado foi contestado pela oposição, liderada pela UNITA.

Portugal acusado de “subserviência”

Uma das críticas mais contundentes dirigidas por Luaty Beirão teve como alvo Portugal, país que considera desempenhar um papel importante na legitimação internacional das autoridades angolanas.

Segundo o activista, Lisboa tem adoptado uma postura excessivamente cautelosa perante as denúncias relacionadas com a qualidade da democracia angolana.

“Eu diria que a relação de Portugal tornou-se quase uma relação de subserviência”, afirmou.

Na sua opinião, as autoridades portuguesas optam por preservar as relações políticas e económicas com Luanda em detrimento de uma posição mais crítica sobre questões ligadas aos direitos humanos, à transparência eleitoral e às liberdades políticas.

Luaty Beirão apontou ainda a presença do Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, na tomada de posse de João Lourenço em 2022 como um exemplo dessa legitimação institucional.

“Quando se legitima aquilo de que o povo reclama, não se está ao serviço de uma amizade entre os povos, está-se ao serviço de conluios entre elites”, declarou.

Desafios para 2027

As declarações surgem numa altura em que começam a intensificar-se os debates sobre o futuro político de Angola e sobre o cenário eleitoral de 2027, eleições que poderão marcar o fim do segundo e último mandato constitucional de João Lourenço.

Enquanto o MPLA prepara o processo interno de sucessão e a oposição procura reforçar a sua mobilização, vozes críticas como a de Luaty Beirão continuam a questionar a credibilidade das instituições e a capacidade do sistema político angolano responder às exigências de maior abertura democrática.

Para o activista, a verdadeira transformação do país dependerá não apenas da realização de eleições, mas da criação de condições que garantam transparência, pluralismo político e confiança dos cidadãos nas instituições do Estado.

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Last modified on Wednesday, 10 June 2026 21:37
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