Mugabe fez discurso a nação, não renuncio e diz que irá presidir o próximo Congresso

De forma surpreendente, Mugabe diz que reconhece as "preocupações" dos militares e do partido, mas não fala em demitir-se.

O anúncio estava feito para ser a despedida de Robert Mugabe, ao fim de 37 anos no poder. Mas o Presidente do Zimbabwe não falou em demissão e garantiu que irá presidir o próximo Congresso do partido que ainda esta manhã aprovou o seu afastamento.

Mugabe disse estar "consciente das preocupações" que deram origem à actual crise política pela qual passa a antiga colónia britânica. Sentado ao lado dos militares que o mantêm detido desde terça-feira, o líder zimbabweano afirmou que irá presidir ao Congresso da União Nacional Africana do Zimbabwe-Frente Nacional (ZANU-PF), marcado para o próximo mês. Desta forma, Mugabe recusa-se a reconhecer legitimidade à reunião do Comité Central desta manhã, em que foi aprovada a sua demissão como primeiro secretário.

"Não podemos ser guiados pelo rancor nem pela vingança", declarou Mugabe, já na fase final do seu discurso. Na sala de onde falou, ouviram-se algumas palmas, mas os militares mantiveram-se impávidos, de semblante carregado.

A insistência de Mugabe surpreendeu o país inteiro, que aguardava a demissão. Nas horas que antecederam o discurso, fontes próximas do processo de negociação entre o Presidente e os militares garantiam que era disso mesmo que se tratava.

O discurso representava a derradeira janela de oportunidade concedida pelo Exército e pelo próprio partido ao homem que o ajudou a fundar para que evitasse a abertura de um processo de impeachment pelo Parlamento. Poucos minutos depois do discurso, o líder da associação de veteranos, Chris Mutsvangwa, assegurou que os procedimentos para destituir Mugabe pela via parlamentar vão avançar.

Todos contra Mugabe

Desde que foi detido pelo Exército na sua mansão presidencial, conhecida como “Telhado Azul”, Mugabe viu cair, um a um, os pilares que sustentaram o seu poder durante as últimas décadas. Os militares apresentaram-se unidos e não deram margem à polícia – que sempre foi uma espécie de “braço armado” do Presidente – para ensaiar qualquer resposta.

A influente associação que congrega os veteranos da “guerra da libertação” pediu quase de imediato a saída de Mugabe, também ele um veterano do conflito contra a minoria branca que governava a Rodésia. Na verdade, a acção contra o Presidente tratou-se precisamente de defender o legado dos veteranos e assegurar que é a facção dos ex-combatentes que continua a exercer o poder no Zimbabwe.

As ruas de Harare, expectantes e tensas durante os primeiros dias da detenção, perderam o medo e lançaram os gritos contidos durante os últimos 37 anos. Muitos falavam do “renascimento” do país e até de uma nova independência.

Mas nenhum golpe terá sido tão profundo como aquele que lhe foi aplicado este domingo. Coube à ZANU-PF, o partido único que controlou as esferas do poder desde a independência, a machadada final na era de Mugabe. Os 200 delegados do Comité Central não hesitaram em afastar o seu líder histórico do cargo de primeiro secretário, expulsando pelo meio a primeira-dama Grace Mugabe (que era líder da estrutura feminina do partido) e outros dirigentes que lhe eram próximos, acusados de conspiração e de espalhar “discurso de ódio”.

PUBLICO

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Last modified on Quinta, 23 Novembro 2017 23:45
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