Omar al-Bashir, ditador do Sudão afastado do poder pelos militares

CARTUM — O Presidente do Sudão, Omar al-Bashir, que estava no poder há mais de 30 anos, foi afastado pelos militares. Num comunicado transmitido na televisão, o ministro da Defesa e vice-Presidente de Bashir, anunciou a detenção do ex-chefe de Estado "num lugar seguro" e a formação de um Governo militar de transição, que deverá manter-se por dois anos.

No poder em Cartum havia 30 anos, o ditador do Sudão, Omar al-Bashir, foi forçado a renunciar após quatro meses de protestos, nesta quinta-feira. Segundo a imprensa estatal, as forças de segurança do país libertaram todos os presos políticos. Testemunhas relataram que milhares de manifestantes entraram no prédio do Ministério da Defesa, à porta do qual protestavam há quase uma semana.

O ministro de Produção e recursos econômicos da região de Darfur, Adel Mahjoub Hussein, disse à TV al-Hadath, de Dubai, que "há consultas para formar um conselho militar para assumir o poder após a renúncia do presidente Bashir". O principal grupo de manifestantes ressalta, no entanto, que só aceitará um governo de transição civil.

Os protestos no país eclodiram em dezembro, quando o governo retirou os subsídios que mantinham controlados os preços do pão e dos combustíveis, sob pressão de investidores estrangeiros, em meio a uma crise econômica. Os 40 milhões de sudaneses sofrem há anos com a contração da economia, causada em parte por anos de sanções econômicas dos Estados Unidos — suspensas em outubro de 2017 —  e pela perda de três quartos da produção de petróleo desde a secessão do Sudão do Sul, em 2011.

Em pouco tempo, os protestos contra o aumento do preço do pão evoluíram para marchas contra Bashir. As manifestações e a derrubada do ditador chegaram no momento em que o líder sudanês tentava, com algum sucesso, normalizar as relações com o Ocidente em busca de alívio financeiro. Seu objetivo, depois do fim das sanções americanas, era retirar o país da lista de Estados patrocinadores do terrorismo feita pelos Estados Unidos.

O regime de Bashir sofreu sanções ocidentais desde os anos 1990. Primeiro, sob a acusação de patrocinar o terrorismo internacional, quando deu abrigo a Osama bin Laden, fundador da al-Qaeda — depois que Bin Laden foi expulso da Arábia Saudita e antes de ele se mudar para o Afeganistão, onde planejou os atentados do 11 de Setembro. Em seguida, houve novas sanções quando Bashir foi acusado pelo Tribunal Penal Internacional de genocídio na repressão à população não muçulmana da região sudanesa de Darfur.

À espera das Forças Armadas

Testemunhas destacaram que a casa de Bashir está cercada por "guarda pesada". Al-Sadeeq Sadiq al-Mahdi, filho do principal líder da oposição do Sudão, Sadiq al-Mahdi, destacou à TV al-Hadath que o ditador está em prisão domiciliar, assim como vários outros aliados seus.

Militares sudaneses inciaram nesta quinta-feira uma operação em Cartum na sede de um grupo vinculado ao Partido do Congresso Nacional (NCP, na sigla em inglês) de Bashir, afirmaram testemunhas. O grupo alvo da operação é o Movimento Islâmico, braço ideológico do NCP.

A televisão estatal anunciou que as Forças Armadas farão em breve "uma declaração importante". "Estejam prontos", indicou o comunicado, cuja divulgação fez milhares de sudaneses seguirem para a porta do Ministério da Defesa do país, à frente de um complexo que inclui a residência oficial do presidente, em Cartum, onde um grupo de manifestantes está acampado desde o fim da semana passada.

Nas ruas, os cidadãos agora cantam e dançam ao som de palavras de ordem contra Bashir. Enquanto isso, a televisão e a rádio estatais tocavam música patriótica, o que lembrou sudaneses mais velhos de como se desenvolveram as derrubadas de presidentes pelas Forças Armadas em episódios anteriores de protestos em massa. "Caiu (o regime), nós vencemos", gritam os manifestantes na porta do ministério.

O Sudão tem longo histórico de mobilizações de rua contra o poder central — duas já haviam resultado em derrubadas de governo. Bashir tomou o poder em um golpe de Estado sem derramamento de sangue em 1989.

A última crise recrudesceu no último fim de semana, quando milhares de manifestantes começaram a acampar fora do complexo do Ministério da Defesa. O movimento rachou as forças de segurança e defesa do país. Enquanto os soldados tentavam proteger os manifestantes, na primeira reação militar à crise, agentes de polícia e de inteligência usavam gás lacrimogêneo para dispersá-los no local.

Ao ser pressionado, Bashir reconheceu que os manifestantes ecoavam demandas legítimas da população, mas advertiu que elas devem ser cobradas em paz e nas urnas. Em 22 de fevereiro, o ditador decretou estado de emergência durante um ano, em todo o país, na tentativa de conter as marchas populares, que se espalharam espontaneamente, sem uma liderança clara.

No sábado, ativistas — aparentemente energizados pelo sucesso dos manifestantes argelinos, que conseguiram forçar a renúncia do presidente Abdelaziz Bouteflika — marcharam em direção ao Ministério da Defesa. O objetivo era entregar aos militares um memorando, no qual pediam que os soldados a se juntassem a eles nos protestos. Os organizadores dos protestos pediram ainda a adesão dos moradores da capital e seus arredores. G1

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