Camarada Presidente, o MPLA não recebe recados, somos parte do Governo

No último dia 14 de dezembro de 2018, o Secretário-Geral do MPLA Boavida Neto brindou o país com uma entrevista ao jornal Expansão angolano.

Sérgio Dundão / Jornal Económico 

Este acto de um Secretário-Geral de um partido como MPLA não é um assunto menor, ainda mais quando se trata de uma figura como Boavida Neto, que é um senhor da hard política ou “homo politicus”, segundo a expressão de Robert Dahl, ou seja, um sujeito tarimbado da política angolana.

Assim, essa entrevista foi, minuciosamente, preparada e calculada quanto aos seus riscos políticos e ao seu impacto mediático, não deixando de ser também um acto de grande astúcia e de oportunismo político.

Assim, o impacto real dessa entrevista só pode ser captado pelo facto de existir na realidade política angolana um presidencialismo de partidos. Isto significa que os partidos também são elementos centrais da acção política no âmbito do sistema político angolano. Por isso, a leitura simples segundo a qual o presidente angolano exerce um poder ilimitado por causa dos poderes conferidos a si pela Constituição de 2010 não faz sentido para uma análise política angolana, porque a vida partidária não é concebida através da Constituição. Portanto, o partido MPLA pode funcionar como um efectivo contrapeso ao Presidente João Lourenço.

É, neste sentido, que encaro a entrevista do SG como um produto de um actor político exclusivamente ligado ao funcionamento interno do partido no poder. A decisão de este conceder uma entrevista tornou-o voluntariamente (ou não) num mensageiro político de sensibilidade partidária. Antes da entrevista do Secretário-Geral do MPLA, já Dino Matrosse (antigo SG) tinha alertado que o Presidente “João Lourenço não faz nada sozinho e sem a direcção do partido. Aquilo que ele fez foi discutido no seio do partido” (Jornal Sol, 2017). Tal demonstra que certos sectores do partido no poder não querem manter-se distantes da acção política e governativa do país, nem sequer aceitam receber recados do seu próprio presidente.

Deste modo, este sector do partido crê que a acção de João Lourenço de combate à corrupção não afecta a rede clientelar e de interesses instalados, que asseguram o poder hegemónico do MPLA. Por isso, o Secretário-Geral do MPLA afirmou na entrevista que os crimes até 2012 não deveriam dar lugar a responsabilidade criminal. O Presidente deveria criar uma base de actuação política que garante funcionamento dessa rede clientelar do MPLA.

Dessa entrevista só estranho o facto de o SG assumir uma posição pública, quando este tipo de matéria normalmente é discutido internamente, de forma a não criar uma percepção negativa sobre a vida partidária baseada no clientelismo político. Ao trazer o assunto para a esfera mediática, e na ausência do presidente do partido, acaba por criar um elefante gigante na sala, que espera que o presidente interprete a mensagem e responda de alguma forma para repor a sua autoridade partidária.

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Last modified on Quarta, 26 Dezembro 2018 21:14
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