Negligência Médica: Jovem depositado com vida na morgue

A morte do adolescente invisual Valdemiro Samuel Lino, de 17 anos, que a 13 de Julho foi atendido no Hospital Geral do Lobito, em virtude de traumatismo crânio-encefálico, continua a gerar polémica e comoção na província de Benguela, num momento em que a Procuradoria-Geral da República já investiga o caso.

A Angop apurou que tudo aconteceu num sábado, 13 de Julho. Valdemiro Samuel Lino Domingos, que padecia de cegueira, estava a brincar em casa de um vizinho no bairro da Cabaia, arredores da cidade do Lobito, quando foi encontrado aparentemente inconsciente. Foi levado para o hospital, onde o médico, após observá-lo no serviço de urgência, declarou o óbito.

Na sequência da morte do filho, Augusta Lino, mãe do adolescente, acusa o mesmo médico de ter ignorado sub-repticiamente os avisos da família de que Samuel ainda estaria vivo, pois alegadamente tinha apresentado batimento cardíaco, quando foi transportado à sala da Casa Mortuária da unidade hospitalar.

“Assim que lhe peguei, ele estava quente (…). Ajoelhei, segurei no pé dele e naquele momento decidi orar, mas depois comecei a gritar pelo seu nome: Sami! Sami! De repente, ouvi um suspiro…”, conta, desconsolada, Augusta Lino.

“Naquele momento, questionei-me se seria verdade o que tinha acabado de ouvir ali, na Casa Mortuária”, diz a senhora. E desabafa: “Comecei de novo a chorar e não liguei, mas tentei pegar de novo nos pés e ele voltou a suspirar e parecia que queria lutar”.

Como se encontrava sozinha na sala da Casa Mortuária onde, por esta altura, havia dois cadáveres para serem reconhecidos pelos respectivos familiares, Augusta Lino confessa ter sentido medo e, por isso, tentou abandonar o local.

Já fora, explica, viria a deparar-se com seus três irmãos, que começaram a questionar como Samuel teria caído. “Então, entraram comigo, destaparam o lençol e disseram que o menino ainda estava vivo”.

Seguidamente, dois dos três irmãos foram a correr ao banco de urgência e, após a insistência da família, sob a alegação de que havia sinais vitais no cadáver, o médico e mais dois enfermeiros deslocaram-se à Casa Mortuária, onde disseram que o menino estava morto, mas o irmão da mãe contrariou afirmando que Samuel tinha vida.

-Então, o médico disse: saiam, mas não saímos e ficamos ali a ver a assistência a ser feita ao menino, reforçou Augusta, revelando que, sob o olhar do médico, ela própria tocou no corpo do adolescente e notou que o coração estava a bater.

-Peguei no menino e disse: tem mesmo vida, está a bater o coração, lembra a mãe, segundo a qual o doutor usou, então, um aparelho e naquele instante também teria dito que o rapaz tinha vida.

“Se tem vida, tira então [o menino daqui]", teria reclamado a mãe, ao que alegadamente o médico responderia", Não, já liguei para minha equipa, que está a vir….

Hospital refuta negligência médica

O director do Hospital Geral do Lobito já reagiu à Angop e confirma que, na sequência da gravidade das queixas dos familiares do adolescente, um inquérito foi instaurado pela Inspecção da Saúde do Gabinete Provincial de Saúde de Benguela, do qual resultou a suspensão cautelar do médico e mais quatro enfermeiros, envolvidos no atendimento à vítima.

Porém, Luís Varandas refuta as acusações de negligência médica e assegurou que o médico, ora suspenso, cumpriu com todas as obrigações, tendo verificado o óbito logo à chegada do paciente ao hospital.

O responsável defende que, diante das informações dos familiares de que havia sinais vitais no cadáver, a equipa médica ainda foi à sala da Casa Mortuária e, posto lá, reconfirmou o óbito, não obstante as contrariedades que surgiram no local.

“Não corresponde a verdade de que o corpo foi colocado com vida na Câmara de Conservação, porque permaneceu na sala mortuária por mais de oito horas”, sustentou Luís Varandas, admitindo que o resultado da autópsia, feita 72 horas, confirmou a morte do adolescente por trauma crânio-meningo encefálico por objecto contundente.

Essa evidência, segundo o director Luís Varandas, aponta que a causa da morte foi externa, ou seja, fora do Hospital Geral do Lobito.

Também denuncia uma alegada campanha, nos últimos tempos, com o objectivo de denegrir e descredibilizar o Hospital Geral do Lobito e a competência dos profissionais médicos, que ajudam a salvar vidas todos os dias.

PGR investiga e admite responsabilização da equipa médica

Perante a denúncia pública feita por familiares, a Procuradoria-Geral da República, junto do Tribunal da Comarca do Lobito, já abriu uma investigação para se apurar eventuais responsabilidades. Na quarta-feira, foi já ouvido o médico e os demais envolvidos.

O procurador Almerindo Bastos admite que, caso seja provada a veracidade das informações dos familiares contra a equipa médica, abre-se a possibilidade de um homicídio involuntário, embora argumente que a PGR tem ainda de apurar as responsabilidades.

“Podemos apurar duas responsabilidades, existindo qualquer negligência ou erro médico”, frisou, ressaltando que, no exercício da sua actuação, os médicos cometem lapsos “despropositadamente”, mas que estes podem resultar em responsabilização civil e criminal.

Por outro, pede que a população denuncie eventuais anomalias no atendimento médico, evitando a permissibilidade para que os infractores possam ser responsabilizados conforme a lei.

Samuel, o cego que era poeta

Valdemiro Samuel Lino Domingos frequentava a 7ª classe na Escola do Ensino Especial, na cidade de Benguela. Apesar da cegueira que o apoquentava, Samuel, com a ajuda do código Braille, escrevia e recitava poemas.

“Não temos palavras para expressar a dor da morte do nosso aluno Samuel. São muitas lembranças. Ele interagia com os colegas e professores”, disse à Angop uma professora, visivelmente abalada, revelando que Samuel tinha uma inteligência acima da média e que neste momento os colegas pedem uma resposta para o que de facto aconteceu.

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Last modified on Sábado, 27 Julho 2019 00:35
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