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Redução das taxas BNA enfrenta “bloqueio estrutural” que limita efeito na economia angolana – economista

Post by: 19 Mai, 2026
Redução das taxas BNA enfrenta “bloqueio estrutural” que limita efeito na economia angolana – economista

Um economista disse hoje a redução das principais taxas do banco central angolano enfrenta um "bloqueio estrutural" que limita o seu efeito, porque a banca comercial "continua a privilegiar o financiamento ao Estado em detrimento do crédito à produção.

À Lusa, o economista angolano Agostinho Mateus reconheceu que o Banco Nacional de Angola (BNA) Iniciou um ciclo de "afrouxamento monetário", com cortes graduais das taxas diretoras ao longo de 2025 e inicio de 2026, considerando que, "na teoria, estas reduções deveriam estimular o crédito e o investimento privado".

"Na prática, porém, alertamos para um bloqueio estrutural que limita esse efeito: a banca comercial [angolana] continua a privilegiar o financiamento ao Estado menos arriscado e mais rentável - em detrimento do crédito à produção", afirmou hoje o economista.

Observou que enquanto o referido não mudar, os cortes de taxa [a nível do BNA] "terão um impacto limitado na economia real".

"Para nós, a questão central não é apenas o nível das taxas, mas para onde flui o crédito. E nesse domínio, o caminho a percorrer ainda é longo", argumentou o também investigador do Centro de Investigação Económica (CINVESTEC) da Universidade Lusiada de Angola.

O BNA anunciou na semana passada a redução da sua principal taxa diretora de 17,5% para 17%, a taxa da facilidade permanente de cedência de liquidez de 18,5% para 18% e a taxa da facilidade permanente de absorção de liquidez de 16,5% para 16%, atendendo aos "ganhos observados na trajetória da inflação".

O banco central angolano anunciou também, naquela ocasião, a revisão em baixa da meta de inflação para 2026, de 13,5% para 11,5%, mantendo a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nos 3,5%.

Para Agostinho Mateus, a trajetória da inflação "é genuinamente encorajadora", apesar de existirem sinais de "ligeira aceleração" nos primeiros seis meses de 2026 que "merecem atenção".

Notou que quanto ao crescimento do PIB, a sua leitura è "mais reservada", por entender que crescer 3,5% "quando o produto per capita continua a cair e o setor petrolífero regista contrações sucessivas não representa uma trajetória de prosperidade".

"Representa antes uma economia que resiste, mas que ainda não transformou esse crescimento em melhoria efetiva das condições de vida da população", frisou.

O Investimento direto estrangeiro em Angola registou uma "contração muito acentuada" entre 2017 e 2025, passando de 29.436 milhões de dólares para 12.182 milhões de dólares em 2025, uma queda de 59%, segundo o Relatório Económico Anual 2025, elaborado pelo CINVESTEC e que será oficialmente lançado nesta quarta-feira em Luanda.

De acordo com o relatório consultado hoje pela Lusa, esta descida de 29.436 milhões de dólares (25.293 milhões de euros) em 2017 para 12.182 milhões de dólares (10.467 milhões de euros) em 2025 "é particularmente desfavorável".

O economista Agostinho Mateus, um dos autores do relatório, reafirmou os resultados da pesquisa, considerando que a "contração muito acentuada" do "stock" do investimento direto estrangeiro no referido período "é preocupante".

"Não apenas pela dimensão, mas pelo que revela sobre a composição do financiamento externo do pais", disse, salientando que os mais preocupa o CINVESTEC não é somente a queda do Investimento direto estrangeiro em si, mas o que o substitui, nomeadamente o "crescente endividamento externo".

"Fuga de depósitos de não residentes do sistema bancário e recurso a crédito comercial de curto prazo -mecanismos tipicos de economias com dificuldades de acesso e financiamento de longo prazo", acrescentou.

Angola "está a trocar o capital produtivo por divida, o que fragiliza a posição externa e limita o potencial de crescimento sustentado", atirou, destacando, contudo, o investimento direto externo não petrolífero que "triplicou em 2025, passando de 353,5 para 959,4 milhões de dólares, nesse periodo.

"É ainda um valor modesto em termos absolutos, mas representa uma inflexão que acompanhamos com interesse", concluiu o economista.

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