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João Lourenço demarca o território. E agora, Zé

Post by: 18 Outubro, 2017

Estreando-se a discursar sobre o Estado da Nação, João Lourenço mostrou à sociedade que não quer ser um sucessor manietado pelo antigo Presidente da República

Se subsistiam receios – legítimos, frise-se – de virmos a ter em João Lourenço um Presidente em condição de total vassalagem ao seu predecessor, José Eduardo dos Santos, e sua família, nesta segunda-feira, 16, estes temores podem não ter desaparecido por completo – é verdade –, mas ruíram um bom bocado, para não dizer ruíram substancialmente. Do alto do palanque em que discursava na Assembleia Nacional, vimos e ouvimos um orador ainda pouco treinado, mecânico e quase nada elástico na entonação e expressão gestual, e excessivamente preso ao papel como guião para o seu discurso. Mas, ainda assim, a verdade é que no final ficou a ideia para a qual inúmeros segmentos da sociedade angolana convergem agora: João Lourenço começou mesmo a transfigurar-se, indicando, até prova em contrário, que pretende seguir a sua própria agenda e não a de um pau-mandado, a voz do dono.

Em rigor, João Lourenço começou a mostrar-se numa faceta mais autónoma e de menor dependência ao poder “eduardista” já desde as últimas duas semanas quando, no clímax do mal-estar provocado pela situação reinante na Sonangol, resolveu introduzir as suas impressões digitais no dossier do petróleo. Sem ser intempestivo, mas suficientemente enérgico e resoluto, mostrou as suas credenciais quando, após ter ouvido as inquietações das petrolíferas estrangeiras que operam no país, impôs um despacho que cria uma task force com a missão de apresentar, num mês, propostas de resolução dos problemas imperantes na industria do petróleo e gás.

Aquilo que já se configurava em claro aviso à navegação acabou por transformar-se numa evidente declaração de intenções com o discurso sobre o Estado da Nação na Assembleia Nacional, com o qual João Lourenço procura mostrar que o seu compromisso é com o futuro e não com o passado. No mesmo dia, de resto, em que desencadeou uma autêntica desinfestação do palácio, com a extinção do GRECIMA dos seus serviços de apoio.

E se há algo de bom na governação do passado que ele tenha feito questão de destacar foi sobretudo em relação a aspectos imateriais: a paz e a reconciliação alcançadas. Nada mais do que isto, o que é bastante sintomático.

“Herdámos do Presidente José Eduardo dos Santos um país independente, livre, unido de Cabinda ao Cunene, em paz e com um povo reconciliado consigo próprio, o que agradecemos por representar um importante capital que ajudará a enfrentar com certeza os desafios do presente e do futuro” – foi o capital assacado por João Lourenço ao seu antecessor, José Eduardo dos Santos. Um capital em relação ao qual ele quer que haja a “coragem para melhorar o que está bem e mudar o que está mal com a serenidade e a firmeza que se impõem para o engrandecimento do nosso país.”

E de seguida ouviu-se um matraquear de intenções que significam, à falta de melhor definição, um desejo de ruptura com a profusão de más práticas de governação cometidas no passado. João Lourenço anunciou sem quaisquer rebuços medidas cujas execução e materialização implicarão que ele tenha de entrar e – se calhar mesmo, “tomar de assalto” – domínios que se constituíram, ao longo dos anos, em cidadelas inexpugnáveis dos interesses da família do antigo Presidente da República.

Uma destas promessas é a que consiste, concretamente, em procurar sanar as imperfeições com que funcionam os mercados na economia angolana, promovendo-se um quadro de livre concorrência e igualdade de oportunidades. Neste quesito, João Lourenço não hesitou e apontou para a necessidade de se pôr termo aos monopólios, prometendo, para tanto, submeter à aprovação da Assembleia Nacional a Lei da Concorrência. Deu como exemplo da sua determinação em mudar completamente as regras do jogo o domínio do cimento. E ao dizer isso, obviamente os olhos da sociedade viram-se para o impacto que uma tal medida terá para o desmantelamento dos interesses instalados directamente pela dinastia do antigo Presidente no mercado do cimento.

“Verifica-se uma concorrência desleal na indústria do cimento, que fez disparar os preços do cimento no mercado pela paralisação de duas unidades fabris, situação que urge pôr cobro de imediato”, afirmou de viva voz João Lourenço, num primeiro momento. E noutro repisou: “Vamos apostar na competitividade das empresas e acabar com os monopólios, que prejudicam a actividade económica e os consumidores.”

Sabe-se a quem o novo PR se refere com tais remoques. Não é segredo para ninguém que Isabel dos Santos, filha de José Eduardo dos Santos, assenhorou-se dos mercados do cimento e da telefonia móvel, tomando ao desbarato e por via de processos escusos a UNITEL e a principal cimenteira nacional (Cimangola). Asfixiando toda e qualquer concorrência, nacional ou estrangeira, ganhou dinheiro a rodos e levou ao disparar dos preços do principal material de construção, o cimento, bem como das tarifas das comunicações telefónicas.

Em estreita associação com o desígnio de se pôr termo aos monopólios está o combate à corrupção e aos crimes económicos financeiros, domínio no qual José Eduardo dos Santos vinha eternizando um arrastar de pés com promessas balofas e sem actos concretos. Vimos, nessa matéria, o discurso ganhar aspectos mais concretos quanto a meios e formas em que o combate à corrupção se deve processar. João Lourenço apontou o investimento numa reforma da legislação de combate à corrupção, bem como nos instrumentos coercivos e de justiça que lhe estão associados. Falou em “mexer” em órgãos e instrumentos como a Procuradoria Geral da República e o Tribunal de Contas que têm sido peças ineficientes do sistema judiciário, que deixam tranquilamente à solta o crime de colarinho branco para punir delitos menores e engaiolar pilhas-galinhas.

João Lourenço prometeu o saneamento completo da banca nacional, que vem funcionando ao longo dos anos como verdadeiro vazadouro dos recursos financeiros do país, proporcionando e facilitando mesmo a fuga de capitais nacionais para o estrangeiro. Neste capítulo deu-se ao “atrevimento” de fazer uma exoneração indirecta do governador do Banco Nacional de Angola quando fez a seguinte afirmação: “Não descansaremos enquanto o país não tiver um Banco Central que cumpra estritamente e de forma competente com o papel que lhe compete, sendo governado por profissionais da área.” Aqui também, João Lourenço não se coibia de fazer alusão à forma caricata como Walter Filipe, um jurista completamente inexperiente em relação ao mundo da alta finança, se veio a tornar governador do BNA.

Erros do passado, trunfos do presente

Depois dessas declarações de João Lourenço, as hostilidades entre ele e José Eduardo dos Santos passam agora para campo descoberto. Contudo, os desenvolvimentos desse folhetim dependerão em grande medida dos trunfos que um e outro reúnem.

Não sendo propriamente uma reprise do confronto avinagrado que tiveram no passado, uma vez que João Lourenço já não está na condição de aspirante ao cadeirão máximo do poder, mas já lá se encontra efectivamente, a verdade é que ele não deverá descurar que o seu rival ainda é o líder do MPLA, posição que continua a proporcionar-lhe algum poder de manobra.

Dificilmente se espera que João Lourenço venha a cometer os mesmos erros do passado. O primeiro deles, não avaliar nas devidas proporções os prós e contras de uma decisão que queira tomar, mas sobretudo avaliar antes de mais as forças em presença e os apoios com que contará para uma eventual investida.

Desta vez, pelos vistos, João Lourenço teve todo o tempo para reflectir e só sair a campo descoberto depois de ter assegurados apoiantes no partido e na sociedade, que estão cansados do “status quo” protagonizado por JES e sua entourage. Mas é principalmente para os sinais que vêm da sociedade que ele seguramente olha. A erosão sofrida pelo regime pôs o relógio em contagem decrescente.

Com as lições do passado, João Lourenço aprendeu também que não deve cometer erros como os que teve ao olhar quase exclusivamente para os seus próprios botões, isto é, para os seus próprios interesses em primeiro lugar, esquecendo-se dos do partido de um modo geral. É devido a essa evolução, de resto, que ele já não é tratado pelos seus coetâneos do partido pela alcunha “Mike Tyson”, que ganhou devido ao antigo trungungo com que ia a certos lances do jogo político, mais parecendo um elefante numa loja de porcelanas.

Estamos todos lembrados dos choques frontais que teve com JES nos idos de 2003 e que determinaram a sua defenestração do cargo de secretário-geral do MPLA. À época destes factos, numa altura em que JES gozava de prestígio e uma aura de omnipotente na chefia do partido e do Estado, apesar dos longos anos que já levava de poder, e ele ainda não havia feito questão de abrir o jogo da sucessão, pelo menos no que diz respeito a nomes, João Lourenço surgiu inopinadamente, atirando-se ao lugar do líder.

Tanto que a determinada altura já não escondia que desejava o “trono” de JES, espalhando isso até em círculos estrangeiros. Foi badalada uma ida sua ao estrangeiro, mais concretamente a Grã-Bretanha, aonde se mostrou, sem procuração de ninguém, não apenas como o nº dois, mas também e claramente como o “futuro nº um”. Atribuiu ao seu cargo de secretário-geral do “Maioritário” uma faceta nitidamente presidencialista, recebendo dignitários no Kremlin com a pompa e circunstância de um estadista.

Vezes sem conta somou desnecessariamente inimigos à esquerda e à direita, que bem podiam converter-se em preciosos aliados lá mais adiante. Todos estamos lembrados como, em véspera do Congresso de Dezembro de 2003, ele atracou-se a Bornito de Sousa, uma figura prestigiada do aparelho partidário, e como foi afoito a procurar barrar a entrada no CC de gente do “Futungo”, homens da confiança do Presidente.

Descontado o facto que se tornou conhecido de, sob a sua tutela, ter procurado lançar um jornal privado, a verdade é que era um tempo em que João Lourenço tratava a imprensa com muito desplante e sobranceria, desprezando de certo modo o papel dos jornalistas como aliados. De sorte que a menor escorregadela sua de linguagem ia logo parar aos tablóides. De resto, foi por causa de precipitadas declarações suas à imprensa que perdeu os travões e quase deitou a perder a sua ambição de chegar ao poder máximo. Todos estão lembrados do momento final desse embate com JES. Isto é, do timing errado escolhido por João Lourenço quando proferiu sucessivas declarações à comunicação social, com as quais procurou “amarrar” JES ao seu compromisso de deixar o poder...

Não é assim que se mostra hoje João Lourenço. Vê-se o tacto com que passou a lidar com a imprensa. Bastará, para tanto, ver a forma como durante a campanha eleitoral foi praticamente carregado ao colo pelos jornalistas. Se muito disso teve a ver com a própria estratégia comunicacional do MPLA, não se pode descurar o facto de que o próprio João Lourenço surgiu a correr também por sua conta e risco, a avaliar pelos muitos “submarinos” que foi espalhando em diversos segmentos da comunicação social.

Em suma, depois de ter sido atirado às cordas e remetido a uma dolorosa travessia do deserto, findando o seu “reinado” como terceiro secretário-geral da história do "Maioritário", João Lourenço terá aprendido, dolorosamente, a não exasperar para além da dose o seu adversário, José Eduardo dos Santos, e o mesmo é dizer: cutucá-lo com vara curta. Pelo contrário, muniu-se de paciência chinesa e uma quase insuperável discrição, ao ponto de ter conseguido que JES passasse uma esponja sobre o passado e fazer dele o seu substituto. (Correio Angolense)

Aguardemos pelos próximos capítulos.

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