Governo quer recuperar peças desaparecidas e enriquecer museus

Post by: 19 Mai, 2026

O ministro da Cultura, Filipe Zau, disse que o Governo está em contacto com Portugal e outros países no sentido de recuperar objectos que foram roubados ou levados do país, muitos deles durante a guerra, para que sejam restituídos.

O ministro da Cultura falava à Lusa à margem de uma visita ao Museu Nacional de Antropologia, no encerramento da primeira jornada nacional dos museus, na Segunda-feira, onde inaugurou uma exposição com um acervo comprado a um colecionador.

Filipe Zau lembrou que este foi o lema assumido pela União Africana durante a presidência angolana, em 2025 — "Justiça para os Africanos e as pessoas de ascendência africana através das reparações" e defendeu a restituição de todo o espólio.

Deve ser restituído "a casa, aos museus, para a nossa própria educação, em vez de estarem a ser leiloados e a estarem vendidos por colecionadores", afirmou.

A propósito deste acervo, disse que foi comprado "com muito gosto", assinalando que Angola vai ter em breve mais museus, como o Museu da Luta de Libertação e o Museu da Resistência.

"Para que o museu não tenha só paredes, temos que trazer as nossas coisas para o seu lugar", realçou, afirmando que Angola tem desenvolvido iniciativas diplomáticas neste sentido.

"Estamos a falar com todos, não só com Portugal, portanto, em todos os locais onde houve ou roubo, ou levar de forma incorrecta, portanto, peças museológicas, isto foi aproveitado, sobretudo, durante a guerra (...)", adiantou, acrescentando que Angola também tem feito a sua parte, nomeadamente devolvendo peças ao Palácio de Versalhes.

"Simplesmente doamos aquilo que não nos pertence, para termos moral para pedir aquilo que é nosso", disse, insistindo que o Governo "fala com toda a gente".

"Não é particularmente Portugal que me interessa. Interessam-me as peças, não o país que as tem", prosseguiu.

Questionado sobre se já há peças identificadas, respondeu: "Sim, pode ir ao Museu de Etnologia, que fica em Belém, ao lado das Forças Armadas".

No discurso de encerramento da jornada nacional dos Museus, o ministro assinalou que falar de museus em Angola é "revisitar aspectos relevantes da memória colectiva".

Lembrou que os primeiros museus em território angolano surgiram nas décadas de 1910 e 30 do século XX, associados à dinâmica da investigação científica na antiga administração colonial, sendo instrumentos de recolha, classificação e conservação de artefactos culturais e etnográficos e, embora marcados pelo contexto político e ideológico da época, preservaram importantes testemunhos da riqueza cultural dos diferentes grupos existentes em Angola.

Com a independência, continuou, "os museus passaram a assumir uma missão histórica diferenciada", deixando de ser espaços de observação exótica do outro para se tornarem "equipamento de conhecimento e afirmação de nós mesmos no país onde estamos e ao qual pertencemos, fortalecendo a inclusão do espírito de angolanidade e coesão nacional".

Para o governante, hoje os museus representam muito mais do que edifícios destinados à conservação, catalogação e arrumação de acervos, sendo instituições estratégicas de identidade, inclusão social, trabalho educativo, pesquisa científica, interesse turístico e promoção diplomática.

"Neles repousam as marcas da nossa ancestralidade, os testemunhos das resistências históricas das diferentes comunidades, os símbolos das nossas tradições, da africanidade das nossas línguas", frisou.

Filipe Zau disse que esta primeira jornada permitiu reafirmar que os museus são importantes guardiões da memória, mas devem estar também voltados para o futuro e são chamados a reinventarem-se permanentemente.

Destacou, por outro lado, que o sector museológico angolano enfrenta desafios relevantes, como a necessidade de reforço da preservação preventiva dos acervos, modernização das infra-estruturas, digitalização e inventariação do património, formação especializada de quadros, descentralização e alargamento das comunidades ao património cultural nacional.

Sublinhou igualmente que o Executivo mantém compromisso firme com a expansão da rede museológica nacional.

Neste âmbito invocou os casos dos novos museus, mas também a modernização tecnológica, a capacitação técnica dos profissionais do sector, o aprofundamento da cooperação internacional em matéria de museologia e na recuperação de peças do acervo museológico que se encontram no exterior, no âmbito da justiça reparadora para africanos e afrodescendentes, sendo esta primeira jornada um marco deste processo.

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